sexta-feira, janeiro 27, 2006

charada

Ainda me lembro de quando nos conhecemos. Tu eras um bocado tímido. E eu também. Da primeira vez que saímos parecíamos duas crianças a quem tinham dado um doce. Daria tudo para voltar a esse dia só para ver o teu sorriso. Só dizíamos coisas parvas, mas para nós fazia todo o sentido. Foi nesse dia que tivémos a nossa primeira discussão. lembraste?? não querias deixar-me ir para casa sozinha, e eu não queria que tu deixasses de ir com os teus amigos só por minha causa. nesse dia eu ganhei.

Entretanto fomo-nos conhecendo e eu comecei a ansiar pelas horas em que estava contigo. queria abraçar-te, queria beijar-te, queria ter-te sempre ao pé de mim. queria conhecer-te como me conheço a mim. queria saber tudo, tudo, tudo. o que gostas de comer, de fazer, de vestir, de ler, ver... e queria que tu me conhecesses a mim tambem. queria que conhecesses tudo de mim. tudo, tudo, tudo. queria que soubesses aquilo de que eu não gosto, queria que adivinhasses os meus pensamentos e que completasses as minhas frases. Eu conhecia-te de cor.

O dia do nosso casamento foi o mais feliz da minha vida. nao foi a cerimonia em si, confesso. Nem a festa a seguir. nem os convidados, ou a música que tocou. foi depois quando saímos os dois juntos e eu senti que iria ser assim para sempre.

A seguir o tempo parece que passou muito rapido, quase sem nos darmos por isso. tivemos os nossos filhos, eles cresceram e hoje cada um tem ja a sua vida. profissionalmente, fizemos tudo aquilo que podiamos fazer e ja faltam poucos anos para a nossa reforma. é disso que eu queria falar. da reforma. o que vamos fazer nessa altura? vamos ter tanto tempo só para nós. mas tu já nao queres estar comigo. quando chegas a casa dás-me um beijo seco e rápido. cada vez que falo contigo parece que estou a torturar-te. as palavras custam a sair quando falas comigo. não me lembro da ultima vez que fomos sair os dois. ou que tivémos uma conversa que durasse mais de 1 minuto. os nossos filhos evitam-te. preferes estar sozinho do que comigo. não tens paciência para mim e de que cada vez que falas comigo é para me mandar calar, ou chamar nomes, ou para gozar comigo. que foi que eu fiz? que foi que aconteceu connosco? como e que conseguimos chegar a este ponto? eu tento fazer tudo para tu estares bem mas tu consegues sempre desprezar aquilo que eu faço.. ja não te interessa? que vida vivemos nós? vale a pena continuarmos juntos se percorremos caminhos distantes? se ja não ouves nem te interessas por aquilo que eu digo? porque será que eu continuo a apostar em nós, se para ti, parece que eu não existo??


*aviso a quem conseguiu ler o texto até ao fim!! é um texto fictício. ás vezes fico a pensar no que é que será que une duas pessoas quando elas já não se suportam, e a única coisa que fazem é magoar-se. a vida está cheia de casos assim. o vizinho que bate na mulher, o amigo que é bêbado, o joaquim que passa a vida fora de casa.... porquê?

2 comentários:

Ana disse...

Não sei, Maria, não sei mesmo... E tenho um medo tremendo que isso aconteça comigo... ou com alguém importante para mim... É virar as costas e seguir com a vida... o comodismo não é solução...
beijinhos

Mysterivz disse...

hmmm, gostei do texto, será que é possível aplicá-lo a algum caso concreto. é triste, e espero que os sonhos não continuem assim para a maior parte das pessoas, nem a realidade para uma pouca parte.